Quarta, 24 de Julho de 2024
Timon Estação das Flores

A Estrada de Ferro Caxias a Cajazeiras (atual Timon): um marco no desenvolvimento do Maranhão

A Estrada de Ferro São Luís - Teresina: um símbolo do desenvolvimento do Nordeste.

29/01/2024 17h58 Atualizada há 6 meses
Por: Jornalismo | Timon Maranhão
A Estrada de Ferro Caxias a Cajazeiras (atual Timon): um marco no desenvolvimento do Maranhão

Durante o Brasil Império, a economia do Maranhão se sustentava na exportação de produtos como algodão, arroz e coco babaçu. O transporte fluvial, realizado por companhias de navegação a vapor no rio Itapecuru, era o principal meio de escoar a produção das regiões produtoras, como o município de Caxias, até o porto de São Luís. A capital do estado também desenvolvia um parque industrial têxtil, mas era necessária uma forma de transporte mais eficiente para atender ao crescimento da demanda por matéria-prima.

Título: Vapor da Companhia Fluvial maranhense  :Itapecuru, MA

 A cidade de Caxias, em especial, era um importante centro comercial e industrial, conhecida como a "Manchester brasileira."

Título: Estação Ferroviária de Caxias (MA)

Acervo: IBGE

Nota: Inaugurada em 1895, a Estação Ferroviária de Caxias foi um importante ponto de conexão entre a cidade e o resto do país. Na década de 1910, uma nova construção foi erigida, quando a linha Caxias-São Luís foi ativada. No entanto, alguns prédios secundários que compunham o complexo ferroviário ainda permanecem.

Em 1888, foi autorizada a construção de uma ferrovia que ligaria Caxias à cidade de Cajazeiras, na divisa com o Piauí. A obra foi iniciada em 1891, pela Companhia de Melhoramentos do Maranhão, presidida pelo engenheiro Aarão Reis.

Com a criação da Companhia de Melhoramentos do Maranhão, as obras da estação férrea iniciaram em 1891, na próspera cidade de Caxias. A estrada ligava Caxias até as margens do Rio Parnaíba, em São José das Cajazeiras (já elevada a Vila de Flores), vizinha com a capital piauiense Teresina. A estrada passava também nas terras do Engenho D’água, importante fazenda e usina de cana de açúcar da família Castelo Branco da Cruz. Ali foi construída uma estação que foi batizada de Estação Cristino Cruz, em homenagem ao industrial e político responsável pela sua construção, que ali residia.

Título: Estação Cristino Cruz : Engenho d'Água, MA
Acervo: Internet

A maior parte das estações no Maranhão entrou em atividade no ano de 1919, mas consta que desde 1915 já havia a circulação de trens na linha. Contudo, esse trecho compreendido entre Caxias e Cajazeiras, concluído no ano de 1895, serviu principalmente ao chamado “Engenho d’Água”, de propriedade do grupo agroindustrial “Casa Cruz.”

O trecho em questão começava no porto fluvial das Cajazeiras, na margem esquerda do rio Parnaíba, fronteiro a Teresina. Dessa forma, com seus noventa quilômetros, possuía ele como função quase que exclusiva o transporte de cana-de-açúcar para o engenho, e no seu retorno levava açúcar para ser conduzido às praças intermediárias de São Luís, Teresina e Parnaíba, pelos rios Parnaíba e Itapecuru. O outro trecho da segunda ferrovia, compreendido entre São Luís e o povoado de Cachimbos (Cantanhede), teve sua inauguração no ano de 1919.

 Título: Estação Cristino Cruz : Engenho d'Água, MA
 Acervo: estacoesferroviarias

A inauguração ocorreu oficialmente em 03 de abril de 1895, mas só entrou em funcionamento meses depois com a primeira viagem entre Caxias a Flores, ocorrida em 9 de julho daquele ano. O jornal Gazeta Caxiense, na edição do dia seguinte a esta viagem, noticiou de forma bem crítica o início deste serviço:

“A inauguração da estrada de ferro era um fato ansiosamente esperado pelo público, entretanto realizou-se friamente, sem festejos de natureza alguma, o que é muito para estranhar, se não para lamentar, atento a importância do objeto.”

O impresso nos informa dessa viagem inaugural importantíssima, mas ocorrida de forma tão lamentável. É preciso salientar que o jornal, naquele momento, fazia oposição à administração municipal. Era bastante comum menosprezar qualquer ação política do lado oposto, ainda que a realidade tenha sido diferente.

Título: Mapa - Linha férrea "São Luíz - Terezina"
Acervo: vfco.brazilia.jor.br

A "Ferrovia São Luís-Teresina," com seus aproximadamente 476 km, teve, como referido, diversas “inaugurações,” conforme avançavam os trabalhos de sua construção. Essas atenderam a interesses de chefes políticos locais do interior maranhense. Com efeito, isso dificulta a indicação de datas precisas quanto ao início das atividades da linha férrea ou das edificações acessórias. Contudo, uma “inauguração oficial” se deu no dia cinco de março de 1921, com a partida de uma composição de Cajazeiras até Rosário, já que a ponte metálica sobre o Estreito dos Mosquitos, que conduziria ao ramal assentado na Ilha do Maranhão, não foi concluída antes de 1928.

Contudo, a ligação completa entre São Luís e Teresina não se daria antes de 1940, quando da inauguração de uma ponte metálica de 270 metros sobre o rio Parnaíba, ligando a capital piauiense ao então município de Flores (hoje Timon), anteriormente o povoado de Cajazeiras. De se notar que apenas nesse período é que o Maranhão consegue estabelecer uma ligação efetiva, por terra, com o restante do país.

 Título: :Ponte sobre o Rio Parnaíba - (Ponte Metálica)
Acervo: Internet 

 

O desenvolvimento do comércio

A e.f São Luís-Teresina, com 476 quilômetros, era conhecida como a Estrada do coco, nome que se justifica pela passagem de grandes áreas ligadas às atividades extrativistas do coco babaçu, a principal atividade econômica da região e, consequentemente, um dos produtos mais transportados pela ferrovia. Transportava também, arroz, algodão, cereais, madeiras, peles, e passageiros. 

O coco babaçu era utilizado na produção de óleo, farinha e outros produtos. A ferrovia permitiu que esses produtos fossem transportados para outras regiões do país, estimulando o comércio e a economia local.

Título: Estrada de Ferro: Códo, MA
Acervo: IBGE

 

Título: Estação Ferroviária de Codó (MA)

Acervo: IBGE 

Notas: Carregamento de arroz no pátio da estação férrea em Codó.

Ferroviários: a construção de cidades e a formação de uma cultura

A ferrovia "São Luís - Teresina", com extensão atual de quase 476 quilômetros, serviu amplamente a população dos Estados do Piauí e Maranhão. A ferrovia empregou centenas de trabalhadores, que se fixaram em cidades que se desenvolveram ao longo da linha férrea.

O depoimento de "Seu Zezico", indica que na Estação de Rosário, ao menos cem pessoas trabalhavam como "empregados de quarta", classificação que se referia ao nível das funções exercidas. Essas pessoas, que poderiam ser elevadas até as de "primeira" categoria, tinham um papel importante na operação da ferrovia.

Título: Estação Ferroviária de Rosário (MA)

Acervo: IBGE

Notas: Título: Estação Ferroviária de Rosário (MA), acervo do IBGE; até 1975 denominada EFSLT (Estrada de Ferro São Luís – Teresina) e, após 1975, conhecida como RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A), sendo popularmente reconhecida como a Oficina do Carmo.

A chegada da ferrovia também contribuiu para o desenvolvimento de assentamentos rurais, que se transformaram em verdadeiras cidades. Foi o caso do município de Cantanhede, cuja sede se alongou em paralelo à linha férrea. Em 1902, o povoado já existia com cerca de vinte habitações. Com a chegada dos trilhos, o povoado teve um grande incremento, e as habitações se localizaram à margem da ferrovia.

A cidade de Cantanhede tem seu núcleo quase que exclusivamente na Rua da Estrada de Ferro, da qual se originaram travessas que vão até o rio Itapecuru. Os trens passam, rumo a Teresina, às segundas, quartas e sextas, e, para São Luiz, às terças, quintas e sábados. Nenhuma de suas ruas é calçada. É ponto de parada obrigatória dos trens de passageiros que demandam São Luiz ou Teresina. Apenas dispõe de uma pensão, sem requisitos de conforto. Os telegramas são recebidos e expedidos por intermédio da Estrada de Ferro.

O trem em Cantanhede não funciona mais. A última viagem de trem na linha que passava pela cidade foi em 2015.

 Título: Estação de RFFSA : Cantanhede, MA
 Acervo: IBGE

A canção "De Teresina a São Luís"

A canção "De Teresina a São Luís", composta por Helena Gonzaga e João do Vale, retrata a importância da ferrovia para o Maranhão. A música conta a história de um passageiro que embarca no trem em Teresina, no Piauí, e segue até São Luís, no Maranhão.

Ao longo da viagem, o passageiro observa as paisagens da região e conhece pessoas de diferentes lugares. A música também faz referência às dificuldades da viagem, que era lenta e cansativa.

Em Caxias, o viajante cumprimenta a cidade e faz referência ao poeta Gonçalves Dias. Em Codó, ele destaca o folclore e o catimbó. Em Coroatá, ele se despede dos cearenses que também estão viajando no trem. Agradece às cabroxas pelo ótimo atendimento, vendendo "De comer" para os passageiros.

A canção "De Teresina a São Luís" é um importante registro histórico da importância da Estrada de Ferro Caxias a Cajazeiras para o Maranhão. A música retrata a integração do estado ao restante do país e o papel da ferrovia no desenvolvimento econômico e social da região.

A viagem de trem de Teresina a São Luís, no Maranhão, era uma experiência única. No entanto, o conforto era prejudicado pelas fagulhas emanadas do escapamento das "marias-fumaças", como relatam vários depoimentos.

De Teresina a São Luís
Luiz Gonzaga

Peguei o trem em Teresina
Pra São Luís do Maranhão
Atravessei o Parnaíba
Ai, ai que dor no coração

O trem danou-se naquelas brenhas
Soltando brasa, comendo lenha
Comendo lenha e soltando brasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Bom dia, Caxias
Terra morena de Gonçalves Dias
Dona Sinhá avisa pra seu Dá
Que eu tô muito avexado
Dessa vez não vou ficar

O trem danou-se naquelas brenhas
Soltando brasa, comendo lenha
Comendo lenha e soltando brasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Boa tarde, Codó, do folclore e do catimbó
Gostei de ver cabrochas de bom trato
Vendendo aos passageiros
De comer mostrando o prato

O trem danou-se naquelas brenhas
Soltando brasa, comendo lenha
Comendo lenha e soltando brasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Alô, Coroatá
Os cearenses acabam de chegar
Meus irmãos, uma safra bem feliz
Vocês vão para Pedreiras
Que eu vou pra São Luís

O trem danou-se naquelas brenhas
Soltando brasa, comendo lenha
Comendo lenha e soltando brasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Peguei o trem em Teresina
Pra São Luís do Maranhão
Atravessei o Parnaíba
Ai, ai que dor no coração

O trem danou-se naquelas brenhas
Soltando brasa, comendo lenha
Comendo lenha e soltando brasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa
Tanto queima como atrasa

Composição: Helena Gonzaga / João Do Vale. 

O ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edson Vidigal, conta que as fagulhas invadiam as janelas do trem como se fossem mutucas, tirando a paz do sono dos passageiros. A Sra. Maria da Conceição Gomes relata que os passageiros colocavam roupas que poderiam jogar fora depois, porque sempre queimavam com as fagulhas. O Sr. José Ribamar Morais Assis, um antigo funcionário da ferrovia, afirma que os passageiros não tinham sossego com as fagulhas.

Título: Estação da estrada de ferro : Pirapemas, MA
Acervo: IBGE 

Patrimônio histórico

O patrimônio ferroviário brasileiro é um importante legado histórico e cultural do país. A Lei 11.483, de 31 de maio de 2007, atribuiu ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a responsabilidade de receber, administrar e preservar os bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural, oriundos da extinta Rede Ferroviária Federal SA (RFFSA).

A prefeitura municipal também pode ter um órgão responsável pelo patrimônio cultural. Nesse caso, o órgão municipal, como a Fundação de Cultura do Município, pode realizar o tombamento de bens culturais de interesse local.

No caso da estação, que é um bem cultural de interesse municipal, a responsabilidade de cadastrar o bem pode ser da prefeitura municipal, ou de uma associação ou grupo de moradores que tenham interesse em preservar o bem.

Para cadastrar o patrimônio histórico da cidade, é necessário preencher um formulário de tombamento. O formulário está disponível no site do Iphan ou no site da prefeitura municipal.

A Estação das Cajazeiras hoje

A Estrada de Ferro Caxias a Cajazeiras encerrou suas atividades, deixando um legado de desenvolvimento econômico e social para o Maranhão e o Piauí. No entanto, o município de Timon, que atualmente abriga o trecho final da ferrovia, não tem a tradição de manter seus espaços arquitetônicos históricos.

 Título: Estação Cajazeira (Flores) : Timon (MA)
 Acervo: estacoesferroviarias

A estação de Timon, inaugurada em 1948, é um exemplo disso. A construção original da estação, localizada no bairro Boa vista, foi abandonada quando a ponte sobre o rio Parnaíba foi construída em 1939. A nova estação, localizada a 500 metros da primeira, foi inaugurada para atender às necessidades do novo traçado da ferrovia.

O espaço da estação velha já abrigou um projeto cultural que tentava resgatar o espaço, transformando-o em um espaço cultural. O projeto, chamado Estação das Flores, tinha como objetivo auxiliar as crianças com atividades educativas e culturais, tais como contar histórias, teatro, música, e eventos para arrecadação e construção desse importante ponto de acesso à cultura.

Título: Projeto Cultural "Estação das Flores"
Acervo: Página do Facebook do projeto
Título: Projeto Cultural "Estação das Flores"
Acervo: Página do Facebook do projeto

Infelizmente, o projeto Estação das Flores foi encerrado, e a estação voltou a ser abandonada. Atualmente, o local é ocupado por moradores de rua e usuários de drogas.

Título: Estação Cajazeira (Flores) :Timon, MA
Acervo: Portal Timon Maranhão
Fotógrafo: Hélio Alexandre
Título: Ruínas da Estação Cajazeira (Flores) :Timon, MA
Acervo: Portal Timon Maranhão
Fotógrafo: Hélio Alexandre
Título: Abandono da Estação Cajazeira (Flores) :Timon, MA
Acervo: Portal Timon Maranhão
Fotógrafo: Hélio Alexandre

 

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